A crise chegou à cultura. Recentemente Steven Spielberg e Peter Jackson viram seus planos de adaptar Tintin para as telas de cinema adiadas. É que a Universal considerou a produção muito cara. Um leilão de arte contemporânea realizado na Sotheby's, em Londres, rendeu 22 milhões de libras, 25% menos do que o número mínimo esperado, de 31 milhões de libras.No Brasil, já se percebem os efeitos da apreensão global. O Ministério da Cultura anunciou que o orçamento do ano que vem será 20% menor que os R$ 800 milhões previstos para 2008. O propósito do corte é reduzir gastos para garantir reservas e superávit. Por outro lado, a Petrobras anunciou um novo investimento de R$ 40 milhões para seu programa Petrobras Cultural até o final do ano. O valor liberado é de R$ 40 milhões, que se soma aos R$ 38 milhões já então liberados para esse ano.Há diversas áreas que podem ser afetadas pela alta na cotação do dólar. No caso do cinema, o aluguel de equipamentos tende a ficar mais caro. A programação de shows e exposições também sofre porque os contratos são pagos em dólar, de acordo com o preço da moeda na data em que a pessoa vai se apresentar. Passagens também são pagas em moeda estrangeira.Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC São Paulo, confirma que a crise tenha conseqüências para a programação cultural do SESC. Embora não tenha havido cancelamentos na Mostra SESC de Artes realizada este mês, que contou com atrações internacionais, seu orçamento sofreu um impacto da ordem de 20% a 30% no preço desses artistas. Até mesmo os latino-americanos negociam em dólar. "Não podíamos cancelar. Vamos ter de dividir com artistas, produtores e SESCs essa diferença no valor estimado", explicou.Para novembro, o SESC reconsidera a vinda de uma exposição sobre o encenador de teatro e óperas norte-americano Bob Wilson, conhecido pelas produções arrojadas e vanguardistas. A mostra viria à unidade Pinheiros. "O cancelamento é a última hipótese a ser considerada, mas não teremos dúvida em fazer isso se for inevitável", considerou Miranda.Evitar as atrações internacionais é uma tendência, com a permanência da crise despontando no médio prazo. O SESC já faz isso para o ano que vem. A produtora Mondo, que trouxe ao Brasil o festival About Us (com Ben Harper e Dave Mathews Band) e que traz nos dias 10 e 11 de novembro o R.E.M., afirma que, até agora, nada foi cancelado. Segundo William Crunfli, sócio da produtora, a crise pode atingir a programação a partir do ano que vem. "Talvez shows como Madonna e U2 sofram um reajuste que os torne inviáveis. Porque os preços já estão no teto e repassar o custo ao espectador é impensável", disse. Crunfli afirma que três grandes shows internacionais para janeiro e fevereiro permanecem em suspenso.Nem todas as previsões são negativas. Para Stephano Florissi, coordenador do curso de economia da cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tudo vai depender do efeito psicológico da turbulência econômica na classe empresarial. Isso porque o modelo brasileiro é baseado em leis de incentivo, cujo valor do investimento é debitável do imposto das empresas. "Essas leis podem virar um instrumento de marketing muito utilizado", diz Florissi. "Algumas empresas que não prestavam atenção nessa forma elegante de se promover, poderão começar a prestar". Por outro lado, pode haver um pânico geral e as preocupações se focarem em outras questões que não as culturais, admite o economista.Efeitos a longo prazo só serão sabidos quando a crise mostrar se veio para ficar. Enquanto isso, todos tentam entendê-la. O que gerou um fenômeno econômico na cultura, no mínimo, curioso. A editora Karl-Dietz-Verlag, de Berlim, anunciou que as vendas de O Capital têm aumentado nos últimos tempos. O número de compradores da obra mais conhecida de Karl Marx triplicou. O livro apresenta uma teoria crítica ao capitalismo e prevê sua autodestruição em decorrência da avidez do sistema, que daria espaço a outro modo de produção. Jörn Schütrumpf, responsável pela editora, declarou ao jornal New Ruhr Zeitung: "Marx está novamente na moda". Será que no Brasil essa moda pega?
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